Faz-de-conta

Gostava de usar flores entre os dedos de veludo como cigarros de cor. Insistia em passar pela vida de asas abertas, cortando o vento dos dias no seu rasar sorrateiro. Os olhos entardeciam sob o passar atento do ontem presente, fechando as persianas de pele que vedavam outros mundos sem lei.

Pendurava pensamentos como quem estendia a roupa acabada de lavar numa varanda enfeitada de hortenses, para os olhar de longe, lá de baixo, da estrada do caminho que faz os dias de toda a gente. Lá de baixo, da calçada gasta pelos passos desnorteados de meio mundo. De onde se vêem ombreiras de portas a convidar ao encosto e ao alto janelas acesas que levam a indagar histórias de vida de quem lá mora. De onde se pensa se haverá mais alguém a olhar da mesma forma. De onde se pergunta se mais alguém se fascina a imaginar os passos e as janelas e os ponteiros dos outros, sem nada melhor que fazer, ou por achar mesmo que o melhor que fazer é, enfim, descobrir mundos em calçadas gastas.

Usava flores entre os dedos como quem se proclamava diferente sem gritar. Brotava sonhos como um rio. Caminhava em passos de bailarina parados no nada. Tinha bigode e chapéu de coco. Usava sapatos de salto vermelhos de verniz. Vestia rugas e manchas na pele. Tinha um leque de vidas por faz-de-conta, numa casa de bonecas devoluta e feliz para sempre, por quantos sempres fizesse florescer.

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