Morrer-me

Todos os dias rasgo a pele. Como quem abre à força com as mãos o esqueleto de gesso em metades disformes, violando as costelas com os próprios dedos, libertando com laivos de animal em chamas a jaula daquela pequena pérola arranhada que ainda pulsa.

Todos os dias tento incendiar a matéria que me torna corpo com uma chama de cor diferente, esperançosa que da combustão de mim se façam versos. E dispo o espartilho de cristais quebrados dos dias comuns à gente. Permaneço, nada mais que poros contra as linhas e a chama de me consumar em novos textos. Todos os dias me dispo de mim.

Tenho prazer em ser nada como quem reza a um Deus, todos os dias. E reduzir-me ao esqueleto de gesso em migalhas e às costelas dilaceradas. E em libertar das veias os rios de sonhos e medos e de silêncios e gritos e pesadelos e voos. Tenho por prece esse ser nada. E encontrar-me perdida. Nem tempo, nem som, nem lábios, nem luz ou atmosfera. Nem oxigénio. O âmbar do nada. A antecâmara da poesia. Como o descanso eterno de uma sepultura, por ritual. Sempre à distância de um despir do mundo. Morrer-me em textos é rezar por defeito e por excesso. Todos os dias.

Todos os dias me tento refazer. E me desconstruo outra vez, pelo simples prazer disso. Dessa placenta que só traz a ausência de nós. Faria desse incansável morrer-me a maior parte da vida, se assim pudesse. Essa dimensão onde tanto se é nota suspensa como vento ou chão ou suspiro é por demais o meu canto preferido do mundo – ou do não ser mundo. Morro-me por ritual sem lhe perder o sabor, faz anos. Como quem espreguiça a alma ou acende um cigarro findo um orgasmo forte. Esses segundos de nada incontáveis valem a vida.

Descasco camadas de mim como quem passa os dedos cheios de fé pelas contas de madeira de um terço confidente, ou beija o amor da sua vida com cada milésimo de corpo doado à arte de amar. É o melhor renascer.

Todos os dias me morro.
Todos os dias me morro.
Todos os dias me morro.
Ámen.

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