Tentativas de algodão

Punha a alma a nu como quem descascava solitária a casca de um amendoim abandonado finda a noite na penumbra do chão húmido de uma taberna duvidosa. Desfazia os retalhos da camisa de penas com que viera ao mundo, depenando com ela tudo o que estivesse de sobra àquele amor de pele com nada. 
E era de pele com nada – sabia-o. Era de corpo – o seu – com ausência do dela. A noção disso apresentava-se não raras vezes num estado latente e anestesiado, como o de um fantasma já velho de o ser, que, tendo explorado todos os cantos à casa daquele amor, se tinha eventualmente cansado de a assombrar com esse tipo de lembranças incolores.
Queria pouco mais que não fazê-la feliz. Talvez nada. E poucos seriam os limites que a demoveriam desse caminho. Talvez até nenhuns. Não estivesse essa porta fechada, que faria todos os dias o incomensurável esforço de se parir a si mesma, manhã após manhã numa nova metamorfose à laia de, talvez um dia, poder estar à altura dela.
Não estivessse essa porta fechada, que deixaria para trás o corpo, aprendendo a ser o abrigo de um mar calmo, ou aquele estranho conforto de um cigarro pós-coito em cama morna, ou mais quantas coisas doces ela quisesse, pois merecia-as todas ininterruptas sem fim à espera apenas da sua vontade.
Não estivesse essa porta fechada, que não se encontraria a querer mumificar uma dor que se  adivinhava sua para sempre, mas pela qual ainda assim nutria um especial carinho, pois  não era se não sombra desse barco naufragado de amar alguém assim.
E nem saberia ser poeta pois não renasceria todos os dias forçosamente em poemas novos de um coração partido, qual Adão da terra e Eva da costela daquele futuro primeiro amor.
E nem teria sentido, que lhe havia sido dado justamente pelo mesmo motivo que antes lhe arrancara o norte sem lhe dar tempo para não ser tarde demais: o apocalíptico caos de alma do seu naufrágio perpétuo chamado amá-la.
O novo X do seu mapa revelara-se então a deliciosa missão impossível de abrir a porta exponencialmente blindada e inquebrável que escondia o mais belo tesouro da sua vida,  cuja armadura era tanta como, na verdade, a ânsia que lha quebrassem para a encontrar na derradeira carência de uma poeta só sua. Mas essa noção permaneceria o seu segredo: a porta abrir-se-ia com tentativas de algodão.

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