Via-o passar

Via-o passar pelas pedras da rua. Como quem sabe ser pássaro e corda. Como quem sabe desfazer-se em passos. Como quem se desconstrói todos os dias num caminho diferente. Como quem tem por destino essa tal coisa nenhuma que é tudo. Sempre mutável e inconstante.

Via-o passar sempre à mesma hora. As paredes pareciam olhá-lo com a novidade de velhas companheiras. Passava ao sabor do vento daquele instante, com os passos a moldarem-se ao que lhe cheirava a vida. E sentava-se sempre no mesmo banco verde de tinta que se despe aos bocados sem precisar de finais de noite. Ou então em banco nenhum. Sabia sentar-se em nuvens se assim lhe dissesse o sentido, ou precisamente a imprecisão da falta dele. Ou então sentava-se nas esperanças amarrotadas dos dias passados que se empilhavam no chão. Ou tão depressa levantava voo, com amores e desamores como guarda-chuva encantado.

Via-se ao espelho em folhas secas dispersas, após os voos derradeiros contra a morte de calcário branco sujo aos quadrados. Tirava o chapéu das preocupações, que colocava ou fingia colocar entre os joelhos, nesse seu sentar que não sabia se imaginário ou não. E despia o casaco com abas de grilo, retalhado a expectativas. Desapertava os botões do real. E abria das calças o fecho do previsível. Despojava-se do peso das amarguras. Descalçava as memórias e os falhanços. E ficava ali. Só pele e paredes e folhas secas como espelho. Sem parágrafos e sem ontem nem ponteiros. Autêntico a si e ao nada que a ser si mesmo estava inerente. Confortável com a instabilidade da sua pele contra a tinta verde descascada ou as esperanças amarrotadas ou as nuvens, pouca diferença lhe fazia.
Porque gostava de estar, sem saber o que isso era, era o não saber o que isso era que o tornava apetecível. Todos os dias esse tal mergulhar num conceito diferente indefinível que era a pele abstracta disso a que chamavam si mesmo.
E ficava por ficar. Porque lhe bastava o aterrador contraste que o tudo e nada se afiguravam, no momento em que restava nada mais que “ser”. Como um orgasmo diário na sua mais completa plenitude.
Via-o passar todos os dias. Acenava-lhe com timidez e ficava a observá-lo como quem sonha um dia saber ser assim: poeta na pele e na vida. Sorria-lhe de longe. Ontem e amanhã, sempre os houvesse, apreciava o seu espectáculo, dias sem fim irrepetível. E a ausência de aplausos diria tudo o que era preciso dizer: ouvia-se o pulsar do mesmo peito.
Via-o passar todos os dias e amava-o sem medida – esse louco que me habita.

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