Casca de noz

O milénio estava irreversivelmente atrasado para que a sua aura pudesse ser entendida pelo comum dos mortais. E nem que os ponteiros corressem como se a sua vida redonda disso dependesse a haviam de alcançar. Era mais que a vida, não apenas. Mas mais ainda do que a vida pudesse algum dia sonhar ser.

Os irremediavelmente apaixonados por si encontravam-se algures num nirvana de bênção, para cuja descrição andar sobre um chão de nuvens nem chegava a ponta mal parida de eufemismo. E alma alucinogéna roçava uma tentativa amadora de chegar ao seu encanto.

Todos no mesmo barco, era o que lhes valia. Sorte ou azar, amariam para toda a vida alguém que era maior que ela e que qualquer conceito bacoco que tentasse sabidamente em vão definir imensidões para as quais nem a tendência perpétua ao infinito maior podia bastar.

Casca de noz atulhada de suspirantes afogados no mel de amar de uma maneira que só a ela fazia jus ser verdade, digna de um cheque-mate é a jogada de aposta que todos davam a vida por ser casas devolutas. Isso ou pedras da calçada ou bancos de rua ou qualquer outra banalidade camuflada, mas sobretudo já oca de ser vivida e já deixada vazia. Para a ver passar, dia após dia, no seu passo enfeitiçado onde as medidas terrenas se perdiam e não restava se não pausa.

Isso e para se verem passar uns aos outros, espelhando juras dessa doença de amar sem fundo que juravam a pés juntos ser os únicos a possuir. Pois que nessa barca, toldados pelo lençol acetinado da cor do sangue de cada  paixão, se haviam de julgar sempre passageiros únicos numa ida sem regresso nem mapa.

Certo é que, embora assim fosse, nos jogos do tabuleiro quotidiano dos seus dias que cabiam nas medidas de um relógio, acabavam por se confessar uns aos outros numa subreptícia encruzilhada de divãs esperançosos, mas mais que isso mortos de sede dela. Todos eles julgando-se os únicos. Na apoteose do drama de mais um dia das suas vidas, recostavam-se nos outros, sem saber que de outros se tratavam, sem saber sequer que tal coisa como outros padecesse do mal de existir. Interminável serpentina de condenados ao mal amar da única forma que pudesse algum dia ser justa para com esse mesmo nome. Para cujo escape único se afiguravam os divãs desses outros que eles, na sua existência de barro com ânsias de casa devoluta, afirmavam vincadamente não existir. E se ponta disso se lhes afigurasse mentira, culpá-lo-iam às alucinações colaterais do devaneio doentio a que tinham sido condenados.

Mais que isso, restavam versos. Ou prosas versadas, ou rimas prosadas. De coerência pouca e de coesão ainda menos do que o juízo que lhes ficava ressequido em fundos de vidro.

Mas isso, apenas nos dias em que não eram assoberbados pelo contra-relógio dos ponteiros que a tentavam apanhar, sem nunca conseguir. Nesses dias… nesses dias nada. Nem tacto nem chão, nem fôlego nem rios, nem sonhos, nem divãs, nem cinzeiros, nem lugar. E nem saudade. E nem vida. Quatro letras: amor.

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