Dois sóis

Quem me dera ter tal sorte,
Ser invisível assim,
Um leve véu de cetim
Que teu corpo sobrevoa
Num deslizar sufocante,
Barco de ânsia escaldante
Com utopias à proa.

E amar-te sem se ver,
Parapeito de um segredo,
Desejar-te sempre a medo
Como fazem os poetas,

Sem te dar cravos nem setas
Só sonhos, mil e um versos,
Estrelas e olhares dispersos
Numa sombra proibida,

À esquina da tua vida
Ir espreitar a passos leves
Em que caminhos te perdes,
Ser mapa do teu tesouro,

E num leito duradouro
Viajar sem direcção
Fazer prosas indiscretas
Das curvas dos nossos beijos

Quais versos em linhas rectas,
Inflamados desejos,
À luz da noite salgada
Sem ter pavio, nem nada

Tal chama desancorada
No navio dos lençóis,
Um sistema com dois sóis
Este da nossa paixão,

Para cuja definição
Não bastam lógicas ocas,
Mas sim o pulsar das bocas
E o sabor do coração.

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