Quotidianismos #2

Via os carros passar. Sentada no banco de cimento no meio da praça, adjacente à imensidão da avenida que subia de mãos dadas com filas de árvores nuas. O barulho das rodas em piso molhado da chuva cuja apoteose tinha há pouco terminado servia de música de fundo à voz mental, que soava sempre tão diferente da verdadeira.

Por uma vez, gostava de ficar ali. Assim. Sem mais nada. Sem mais ninguém. E sem ter tempo nem pressa nem chão nem cume nem norte. E sem ser vista nem ouvida nem sonhada. Só ali. Sem existir. A ver a vida passar. A dos outros. E ter a sua em stand-by.

Ao fundo passava a mesma mulher do costume. Preparava-se para entrar na sua personagem articulada ao detalhe. Pedia há pelo menos um ano com a mesma desculpa – uma doença que lhe fazia restar três meses de vida, e era deficiente, coitada – exímio trabalho de actriz, pensou para si. Ninguém diria que aquele coxear de padrões espásticos demasiado bem executados às vezes até para quem os tem a sério era a fingir.

Estas eram as vantagens de não existir. Via-se o que mais ninguém via, porque sem tempo, tinha-se todo o tempo do mundo para olhar. A mulher, ao fundo da rua transversal, começou a sua rábula numa fantástica performance, que, como de costume, sortia efeito, principalmente junto às madames de vison com cheiro a mofo disfarçado à pressa por água-de-colónia barata no banco de trás do táxi que ali as tinha levado.

Ao fundo, na avenida, os carros apitavam em canones de ópera italiana irritada, como quem apupa uma sinfonia fora do compasso do maestro semáforo verde. Os autocarros passavam, cheios de gente enlatada à espera de chegar a casa e fazer o jantar e dar banho aos filhos e lavar a loiça e ouvir os maridos e as mulheres e rogar pragas à vida e esquecer-se de deixar de existir por um bocado.

Os pombos seguiam a sua rotina de andar atrás de migalhas que os miúdos ou os desastrados ou os turistas de máquina ao pescoço deixavam no chão, que nem procissão de igreja enraizada nos pequenos cérebros de ratos com asas. E os taxistas lutavam contra a gravidade das pestanas, quais persianas pesadas, enquanto esperavam a ouvir o relato do vigésimo jogo de futebol da tarde de cotovelo no parapeito da janela dos carros.

Como era bom, não existir, de vez em quando. As pessoas continuavam nas suas vidas. A sua dissolvera-se ali, à laia de ser poeta num final de tarde numa cidade qualquer.

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