Âmbar

Naufragrava no anoitecer desinquieto que a mão aberta espelhava. Procurava-se nos recantos empoeirados das horas com a solidão por companhia. Como uma fechadura ferrugenta à espera de encontrar a chave certa de si.

Nada mais havia naquele impasse se não sótãos mentais com laivos de âmbar onde se escrevem poemas, com chão de madeira a ranger e folhas espalhadas, amarelecidas pela inércia dos ponteiros. E uma janela de água-furtada, parapeito de sonhos e cogitações à laia de se filosofar, porque sim. Sobravam no ar grãos de pó, dançarinos. A cabeça, sobre os braços descansados, contemplava nenhures e descampados e barcos e mares e sal e sonhos.

E era tudo de uma vez só, ao som de uma desafinação organizadamente poética de guitarras perdidas – moinho de vento, sereia, banco de rua e estrelas, marialva e pardal, gato vadio e calçada, chuva e miradouro e noite.

Era aquele o derradeiro ponto de equilíbrio no exercício quase sóbrio de aprender a partitura da sua pele. A viagem de improviso e a golfada de ar dourado nos pulmões capazes de inspirar, como único trilho de vida, versos feitos de pó de estrelas.

Ali ilusões. Ali desconstruções. Ali retalhos, confusões, espelhos partidos em sótãos de poeira. Ali poesia.

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