Pêndulo trôpego

A voz da mente soava-lhe a gira-discos estragado. Mais um dia com jeitos de domingo preguiçoso – pensou. E no entanto havia um qualquer instinto de origem desconhecida a fazer pensar nas mesmas perguntas, para obter respostas iguais. A chávena de café instantâneo repousava ao seu lado feita fiel companheira à força, com restos de borra fria à espera de ser invadida pelo velho batalhão de formigas que são já mobília da casa. Os dedos haviam decidido voltar a dançar no teclado, era já modo de destrinçar nós e desfazer novelos à laia de viver. Até os monstros interiores se afiguravam numa greve pacífica. Depressa se tornava entediante para uma cabeça com laivos de pêndulo trôpego toda esta calma estranha, devia ser por isso que escrevia tanto, à força de provocar barulhos interiores para se distrair de si, não fosse conhecer-se até pontos sem retorno. O cobertor ressonava-lhe no colo, qual gato gordo e pachorrento. E os minutos pediam licença para avançar. Sem conseguir recusar-se a pensar no ontem e no amanhã, tal máquina de lavar em ciclo repetitivo, brincava com a voz de dentro aos filósofos. Olhando em volta, distraía os pensamentos mecânicos de quando em vez a treinar descrições pormenorizadas de coisas sem nenhum interesse, com a desculpa esfarrapada dessa história de escrever. Na prateleira feitos estátuas imóveis da guarda inglesa estavam um dicionário de português-italiano nunca aberto e sem motivo e mais uns quantos companheiros com a felicidade de ao pé de si se afigurarem elegantes, Uma Abelha na Chuva comprado em segunda mão numa qualquer feira de livros com bónus de passado, MetacarneO Império do Sonho e outros tantos de origem semelhante, daqueles que soam sempre a familiar e nunca se sabe porquê, que aguardavam nesta fila quase imóvel para ser desempoeirados. Na mesinha de cabeceira já há uns anos sem naperon que a aconchegasse, o solitário Memória de Elefante ia sendo afagado noite sim noite também pelo polegar franzino que o folheava em meias horas que alimentavam este algo mais que corpo. Uns quantos cadernos vazios ou com ideias excelentes para projectos falhados ou vencidos pela inércia deambulavam também pela divisão, sem saber porquê. À falta de melhor em que pensar fez para se convencer e encarnar na memória, qual actriz do seu próprio palco, que tudo isso era o sentido, o porquê e a medida: houvesse livros polvilhados de pó e esquecimento, cadernos em branco e projectos de ilusões ridículas ou tédio de força maior e chávenas a servir de bunker a formigas infinitas, que havia algo a melhorar e – consequência forçada pelo faz-de-conta que se sabe o que é a vida hoje – havia algo a viver.

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