Barco coração

Deixa só que embarque no teu navio sem rumo e que navegue contigo sem ter bússola nem rasto. Pensava para si, enquanto viajava no tempo perdido das horas que se recusavam a passar.
Deixa só que entre no teu mar e abrace a efémera espuma das tuas ondas. E que te conduza como casca de noz que traz paladar ao outono dos meus dias. Deixa só que seja a faúlha que dança mais alto na fogueira nocturna dos teus olhos à deriva.
E deixava-se ir, outra vez como sempre, confortando-se na fugacidade morna de um sonho acordado. Deixa só que tenha asas, prometo trazer nos braços a estrela mais bela para enfeitar o xaile negro dos teus cabelos. E que voe mais longe e trago-te pedaços da lua. Construirei um castelo. O mais alto, o mais belo e um mundo que é só teu.
Deixa só que os meus retalhos sejam manta do teu corpo e os cacos da minha alma a tua coroa encantada. Deixa que te abrace o leme e a proa e vem comigo sem medo viver este amor-segredo, naufragar nos meus desejos, num mar de sal e de beijos e de pele e corpo e ontem.
E que se perca o sentido, vamos num fado corrido navegando à desgarrada, levo-te a mim ancorada, mergulhamos na saudade por impulso ou ilusão e sem pensar em mais nada, somos um só infinito, alma nua de granito e arte feita paixão, como um fruto proibido, o destino apetecido do meu barco coração.

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