Até quando

Espreitava, uma vez como tantas, a vida pelo olhar envidraçado. Suspirava e deixava-se cair nos próprios braços, perdendo-se nos vidros baços da mesma velha janela… Naufragava na imensidão de si mesmo, como quem desfazia um novelo sem dar por isso.
A mão, teimosa, arranhava a mesma mesa de madeira de sempre. – Até quando? – E voltava a perder-se, de respiração suspensa num mar de divagações – Até quando ficas, sem ser tarde demais? – Descansava de novo a cabeça nos braços, como quem procura um porto, mas a inquietude recusava-se a partir – Até quando não serão os teus passos arrastados, e os teus pensamentos demasiado pesados para poderes seguir viagem? Até quando conseguirás carregar a tua própria bagagem, sem deixar cair os sonhos?
Até quando não olharás para trás num nevoeiro cerrado, nesse andar que, já gasto, segue sem deixar rasto, no trilho cansado… – Dava por si numa tensão absurda, contraindo os maxilares contra coisa nenhuma, a ranger os dentes sem aparente motivo, e fazia o esforço consciente de voltar ao normal. – Até quando é que o tempo não será já tempo a mais? E os dias não se tornam todos insonsos e iguais? Até quando é que as voltas do relógio não te cansam de viver, e o peso das asas caídas não chega para te prender…
– Escapa-lhe um suspiro – Até quando ficas, sem deixares de estar?

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