Sozinho

– Sozinho?

Sobrou-lhe o eco e a própria respiração, de um ar que parecia que – até ele – insistia em abandoná-lo, escapando dos pulmões, já cansados, a correr.

“Sozinho” é a pior palavra à face da terra… pior ainda que “só”. Só… só, às vezes, sabia-lhe bem. Era ter-se a si mesmo como companhia, e passear deixando pegadas na vastidão dos jardins interiores. Sozinho não… já nem “si mesmo” lhe sobrava, sozinho era como uma granada que rebentava por dentro, e estilhaçava… e não deixava nada se não vazio, e eco.

“Sozinho” devia ser abolido do dicionário do mundo. Talvez assim deixasse de existir… ou talvez não, talvez existisse só na sombra. Ou não seria já só sombra o que restava a quem estava sozinho?

Solidão não mata… absorve, lentamente, cada pingo de alma que sobre dentro do corpo, até que não haja mais fio condutor para regressar ao que se era, nos dias de sol. Solidão não corta… rasga, pedaço a pedaço, devagar, até que todas as migalhas sejam impossíveis de juntar. Solidão não sufoca… faz fugir o ar, passo a passo, até que mais não reste.

Solidão? Não tem porta de entrada, nem tem hora de chegada… vem. Pé-ante-pé, sorrateira e astuta… Nota-se só quando não há já possível luta.

Não é má, é cruel… Não morde, beija com a mestria de quem ama de verdade… E não grita, sussurra… não se sente, faz-se sentir… E uma vez chegada, é a única que promete não partir.

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