Ancorado

Com uma vontade já enrugada de exorcizar sentimento, sentou-se mais uma vez, enfrentando a branquidão das palavras que ainda não tinham saído, na esperança que fosse esta a batalha ganha, ao tentar exprimir o que lhe ia na alma. Era tão imenso, e de tal forma intenso, que as palavras perdiam o sal, entre o peito e o papel.

Queria falar de um amor, em que “amor” sabe a pouco… Debatia-se, pela primeira vez desde que veio ao mundo, com algo de tal forma único que arriscar qualquer palavra, em tentativa de o definir, turvava a sua pureza. Tentava, à força de algo maior, desligar a alma de “poeta”, desconstruir as rimas e dissipar as metáforas.
Era uma batalha peito-letras… como tentar falar de uma flor do campo. Era exprimir o que há de mais belo, num corpo tão naturalmente autêntico, cuja pequenez fascina, e ainda assim encanta, por pulsar vida por todos os pontinhos de superfície que habita… tudo isto sem mascarar de poesias complicadas a simplicidade, que no fim de tudo, era o que a tornava mais bela.

Era uma conexão de alma que dispensava os versos, por ser tão bela assim, por si só e sem mais nada… E como falar deste nada que é tudo? Divagava, por não saber expressar melhor. Era como que a certeza que havia algo antes, de onde ambos vinham já lado a lado… que a separação mundana foi coisa temporária, e apenas suficiente para que dessem tempo à vida de lhes fazer entender que não era mais um, nem apenas outro. Era o reencontro de um “nós” que parecia vir desde sempre.

Desejava ser capaz de desconstruir tudo isto, para que não parecesse exagero de composição, feita de peito embargado… de pouco valia. Havia sempre de parecer onírico e utópico, porque de facto era… e ainda assim, por mais assoberbante que fosse, era real. Era o sentir as lágrimas rolarem sorriso abaixo, tantos dias, tantas vezes, pela sorte de não ser sonho nem filme, nem soneto, nem canção… Era a descarga subcutânea de uma felicidade imensa, cujo único porto de abrigo e de escape, num êxtase capaz de parar o espaço e congelar o tempo, era o abraço… aquele, o único, o melhor.

Era a certeza de viver algo paranormal, maior que a vida e que o entendimento, mais bonito que qualquer poema que pudesse escrever… um lugar na alma onde os limites do mundo nada podem, porque se é derradeiramente feliz, de mãos dadas, e de vidas ancoradas.

E então escreveu, um texto sem métrica, sem arabesco nem recurso de estilo, sem nexo, nem gramática, nem estrutura, nem retoque… desconstruiu o pensar, na tentativa de mostrar o novelo, enrolado mas feliz que tinha cá dentro… podia ter feito versos, dignos talvez de um fado, mas quis antes falar de alma despida, dum coração ancorado.

Queria falar de um amor, em que “amor” sabe a pouco… era um amor assim, como uma flor do campo.

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