Falta de tudo, e memórias

Chovia. Tamborilava os dedos contra o vidro do mesmo copo, velho companheiro, meio vazio, meio cheio de nada. A condensação dos próprios pensamentos hipnotizava-lhe o olhar, preso a coisa nenhuma. Relembrava com perícia de relojoeiro quantos beijos lhe haviam dançado nos lábios, e deixava-se envolver pela saudade. Olhava as rugas das próprias mãos, linhas cronológicas de tanta história passada, e voltava atrás, vazio de si, sentindo aqueles dedos nos seus, as mãos entrelaçadas com o fervor de dois amantes numa cama proibida.
E não lhe restava nada, se não a falta de tudo… isso, e memórias.
Mulheres – pensava – Todas iguais e nenhuma como aquela… 60 anos… mais de vinte e um mil novecentos e quinze dias na mesma cama, e nem um pingo de amor dissipado. Nem depois da pele flácida e do cabelo branco, nem depois dos dentes caídos… nem quando as pernas te tremiam. Eras ainda mais bonita. As mulheres são um feitiço macabro, nem com todos os defeitos deixam de ser encantadoras. E tu sabía-lo bem… danada, como eu te amava… mais ainda quando não querias.
Quando acordavas com o teu mau humor, então ainda te amava mais. Fazias para me arreliar, a arrastar os chinelos pela casa, com a porcaria do mesmo casaco esburacado e de mangas delambidas. Ias ao escritório, sorrateira, para enfiares a minha caneta no cabelo desgrenhado. E depois punhas aquela música pavorosa de pianos tristes no gira-discos empoeirado, só para me inervar ainda mais… e assim ficavas, de olhar baço posto na janela. Eram os teus dias do-contra, e como eu gostava deles… adorava essa tua acidez, acabava sempre em beijos.
A verdade é que também não sabias não gostar de mim, que eu sei. Mesmo que fosse preciso arrancar-to a ferros… mas sempre foste de poucas palavras, e mesmo assim nunca duvidei. O amor transbordava-te da pele, até quando fazias força para o esconder. Os teus amuos só te tornavam ainda mais quente.
Não sei quantos beijos foram com que me abençoaste, todos os dias da nossa vida, mas sei-os todos de cor. Como te sei de cor a pele e a alma, o calor, os sonhos, os arrepios e o cansaço. Como te sei o sorriso e os encantos, e os suspiros e prantos, e os medos e abrigos.
E agora? Sou apenas um velho tonto, triste e só. Tínhamos combinado… Prometeste, prometeste que não me deixavas, porra! Porque é que tinhas de ir primeiro? Até nisso as mulheres são macabras, levam-nos a vida com elas. Prometeste… em certos dias, gostava de ser senil, para não me lembrar da falta de ti.
Ainda por cima, deves estar por aí com a alma de chinelos e o mesmo casaco, com o mesmo cabelo desgrenhado, só para me picares, e a rires-te do meu desespero.
Má… Má, mas minha… Amo-te, Amo-te e Amo-te.

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