Ave nocturna

Escrevia à média luz, depenicando um tinto de terras alentejanas, para embalar os pensamentos… o olhar vagueava janela fora, boémio.
Preocupa-te com o meu silêncio. – escrevinhava, em pedaços de papel tão solitários como a sua alma – Enquanto te faço poemas, não tenhas medo de me perder.Enquanto levares com o meu mau feitio sem filtros, é porque vou ficar. Enquanto te virar a cara e esconder as lágrimas, e disser pouco mais que nada, porque o embargo da voz me trai, é porque mexes comigo.
De cada vez que estremecer e hesitar, e apertar as mãos e enjaular os instintos, é por medo que fujas. – Mais um trago quente escorria garganta abaixo, enquanto o derradeiro olhar o assaltava no reflexo da janela e da inspiração – Preocupa-te sim, quando secarem as palavras e se acabarem os versos, quando se esvaírem os passos e as horas na esperança de te sentir outra vez.
E quando me faltar o brilho no olhar e o fogo no peito, e quando sentires a ausência de faísca no beijo… e quando fugir ao toque e ao abraço, e deixar de te contar por onde me passeia o espírito em noites como esta. Preocupa-te sim, quando nada ouvires de mim… pois sou ave nocturna sorrateira, chego num trago, parto num voo, não deixo rasto nem faço eco.
E quando te esqueceres que não trago no bico garantia, lembrar-to-ei a voar…

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