Sonhos cansados

Era feita de poesia… mal o meu.
Arrancava de mim os versos, silenciava-me a rima, tornava todo e qualquer poema desnecessário.
Fazia odes e sonetos e redondilhas partidas em pedaços, no cavalgar magnético da pressa daqueles passos… mal o meu.
Nas ondas do mar daqueles olhos, os mesmos, os tais, secava-me a poesia… Restava-me um eu tão nu e tão real, que não queria… Não era mais capaz de fazer arasbescos perfumados de amor… era feita de poesia, mal o meu… poesia é dor.
E no trinar daquela voz, houve uma reviravolta… “Meu amor” e acendeu-se uma chama quase morta.
Era feita de poesia… mal o meu, arte fugaz. Era efémero poema, toca-e-foge, moinho de vento sem direcção… mal o meu, no dia em que me fugiram as rédeas ao coração.
E agora? Sobram pensamentos anémicos e veias descoloradas… mal o meu. Não resta nem um pingo de floreados mais.Agora? Agora resto eu de sonhos cansados… tão bela, tão intocável, tão amada…. agora? Sobra a alma corroída… mal o meu. E sobra a falta de coerência e um filtro avariado… sobra a fuga de palavras que teimam em sair:
Não tivesse sido assim, não tivesse amado tanto, não me tivesse deixado ir e ser poeta na vida. Pois fica tu com o poema, que se lixe! Não quero mais, absorve-me então a poesia de vez e deixa de ser musa encantada… agora? Resta mágoa… mal o meu. Permanecerás tu… de sono intocável, na tua redoma de vidro, que me mata, e que ninguém trespassa, porque és tu, sempre tu, só tu e mais tu… e depois, de repente eu, quando calha… prendes-me as asas, e então é tudo, e fazes-me ser espectro da mais bela arte de amar… e depois? Que se lixe! Depois vens tu, e mal o meu, outra vez, pouco te importa. Subtil, magnética, inebriante… prendes-me os fios da alma com arte exímia de mestre pescador… porque te amo? Não sei, e só me alastra a mágoa.
E agora? Que se lixem os sonhos cansados, e a alma corroída, e o filtro avariado… e que se lixem as noites sem dormir e os textos amarrotados… e mais essa amostra de meio amor, e a redoma onde vives, e que se lixe o conta-gotas que me castra por medo que vás embora… Agora, que se lixe esta angústia sem remédio… Agora? Que se lixe tudo, e esta porra de nada que sobra, se não sei já ser, nem deixar de te amar. Sabes? Mal o meu.

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