Quotidianismos #1

Sentara-se ao meu lado, após averiguar, de voz fina, onde estavam os números dos lugares. Dispôs do tabuleiro à nossa frente, onde colocou a mala preta de muitos anos.
A camisola de lãs multicolores jogava mal com as calças pretas às riscas. Envergava uma boina bordeau estilo pintor, que condizia com o lenço florido no pescoço. O nariz adunco sugeria uma espécie de Maria Matos actual e urbanizada.
De dentro da mala, as mãos trémulas, enfeitadas de manchas atemporais, retiraram um livro, amarelecido como ela, e de arestas já carcomidas. Assim ficou durante uma boa meia hora, sendo o livro não mais que um disfarce para o olhar vago, provavelmente perdido em memórias e poeira.
Da mala tirou uma pequena almofada, para apoiar os cabelos brancos. Deixou-se ler, e eu aproveitei para me redimir de outra noite mal dormida, remetendo-me ao sono, enquanto a mente se debatia sobre quem seria esta detentora de traços de pianista francesa, com perfume a livro antigo.

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