Reflexo envidraçado…

Passaram dias… Sentou-se na mesma mesa, de cotovelos apoiando o queixo, escondendo a tensão de uma alma arrepiada. Imaginou olhar aqueles olhos imensos de infinito incansável e ser capaz… Fantasiou que os lábios diziam por fim tudo o que lhe inundava o peito.
Passaram meses… comprimia um guardanapo inocente entre os dedos nervosos, contra a mesa marcada por copos confidentes de outros tantos pensadores de café.
Lá fora morriam gotas de chuva contra o vidro impiedoso, deslizando desesperadas para a mesma sarjeta suja da calçada que albergava passos apressados sem fim. Fugia-lhe o pensamento e as emoções, desenfreadas, sem qualquer padrão ou motivo que se lhe afigurasse. Soltas as rédeas do seu núcleo, galopava entre descidas vertiginosas e subidas a pique, nos carris já ferrugentos da montanha russa interior: tão inevitável como impossível de suportar.
Passaram anos… Sonhava conversas e carícias e sussurros e segredos… Sonhava beijos e âmagos difusos enfim libertados numa catarse… Sonhava que os suspiros que lhe escapavam, involuntários, eram mais que tentativas de apagar sentimentos pesados como blocos de betão num peito sem esperança…
Passou a vida em horas perdidas no reflexo envidraçado da cidade nocturna… O coração tempestuoso ansiava desprender amarras. O pensamento fugidio sonhava ser ancorado…
Passaram esperanças deixadas ao relento… ficaram sonhos e vontades e vazios pesados, sem que nada houvesse a fazer. Ficou a velha sensação entorpecida de que o caminho é incerto mas o sentido é único… desenxabida e mecanicamente único.

Anúncios

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s