Vida

Nada prende aqui. Mais um dia. Acordava, outra vez como tantas, abria os olhos e desviava os cabelos caídos na cara, e vivia só porque sim. Continuar era cómodo. Passar ao lado era simples.
Arrepiava a espinha pensar que o tempo é finito. A consciência de que o futuro é nosso, afigurava-se um peso. Porque aí, sabendo que vivemos para ser felizes, ou se luta, ou então é-se cobarde. É mais fácil ser dormente, não se pensa, não se sabe. Agarra-se a rotina como bóia de salvação no mar da loucura que é estar realmente vivo. Ilude-se a própria mente, como placebo para suportar o peso dos dias, e pensa-se que somos imortais, ou então que havemos de morrer um dia, porque está escrito, e então não vale a pena. Continua-se em “tique-taques” que soam todos iguais, a fazer o que não se gosta, a estar com quem pouco importa, porque tem de ser, porque alguma rotina humanamente parva diz que é assim. E faz-se o que é suposto.
Acorda-se às 6 horas e 57 minutos da madrugada, a chamar nomes ao filho da puta do despertador, outra vez, porque é assim. E veste-se a mesma roupa, porque calhou. E vai-se para o mesmo emprego que não se quer, com a cabeça ocupada no que raio se há-de fazer para o jantar desta vez, e na porra do seguro do carro que falta pagar, e em tudo menos na vida, que continua a fugir. E passa-se pelas mesmas ruas, com a mesma cara de cão carregado de porrada, e nem se repara que somos nós quem detém os nossos próprios passos, capazes de mudar de caminho.
Porque pensar que viemos ao mundo para ser felizes, é ser louco, é ser poeta, é ser utópico e infantil… é não saber o que é a vida… Assumir que o corpo é mais que um veículo pré-programado para suportar o peso dos dias, pressupõe que temos de agarrar as rédeas de mão firme e galopar vida fora, de cabelo ao vento…
E então é mais fácil conformarmo-nos, para não cair, e sermos secretárias e advogados frustrados, em vez de poetas loucos. É mais cómodo ser marioneta, que rasgar os fios e ser actor de improviso, à boca de cena, sem medo.
E é mais simples viver num mundo acente pilares de certezas, feitas de rotinas, porque “tem de ser”… acaba-se sempre por esquecer a verdadeira luta: viver. Pensar dói. Questionar abana a alma. É preciso força de touro para arragar futuros difusos, em queda livre, e suster a respiração no voo vertiginoso que é a vida de um sonhador.
E então, de súbito, há dias em que se berra com mais força, e se manda o despertador à parede de uma vez, e se acorda ao meio dia e vinte e cinco, e ainda se fica na cama, a deitar a língua fora à rotina. E fica-se de pijama, porque apetece. E depois de comer a sobremesa antes dos bifes, chega-se e desabafa-se o que vai na alma, e em dias de loucura, ainda se é infantil o suficiente para tentar dizer aos outros o que é viver.

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