Nonsense…

O texto não agarra se não tiver um bom início. Há que saber fazer floreados e passar mensagens cheias de filosofia, e que façam pensar, e quanto menos se percebam, melhor, porque soa mais poético. Há que usar muitos adjectivos e proposições, e pontuação. Um texto fica sempre mais chique com – isto, torna-se mais “apelativo”, colocando aspas.
Ah, que vá bugiar a sintaxe e a parataxe e o hiperbato! E o resto dos disparates que nos ensinam na escola: nada! É para isso que servem. Viva mas é a revolta dos pobres “ninguéns” que acham que têm o mundo na ponta dos dedos, e não passam disso, como eu. Vivam os textos sem nenhuma mensagem nem interpretação, sem dramaturgia ou merdinhas para se esmiuçar – isso é puro.
Palmas ao espontâneo e ao livre, porque sai de dentro, merda mais às regras que amordaçam! O que tem coragem de sair de dentro, virgem, rústico, autêntico: isso sim, é poesia. Não são versos feitos para rimar em encadeamento e redondilha, para baterem certos com as regras de um livro que dá pontos fáceis nos exames (decorados) e que ninguém gosta de estudar. Merda para isso!
Viva o que é genuíno, o que tem sabor. O que brinca com o som e ousa fazer malabarismo com as palavras. Ao que foge a definições, ao caminho incerto, à interpretação dúbia, ao quebrar de normas feitas por senhores de fato.
Os zés “ninguéns”, os que escrevem textos para o ar, em cantos abandonados que metade ninguém lê, esses sim. Os que não têm nome nem carreira, nem prémios nem aplausos, e que ainda assim insistem em escrever. Pelo sabor, merda para o resto! Pelo prazer, porque se tornou parte essencial, porque é forma de viver, como respirar.
E então escreve-se sem ter nome nem querer nada, sobre tudo, sem sentido nem mensagem e sem coisa nenhuma. Porque sai das veias e da alma, tudo assimétrico e torto, tudo a esbarrar entre os dedos que não são mais que veículo de falhas e mundos nossos que se querem deitar para fora, porque somos assim: ninguém.
Viva isso: a “rebeldia” de fazer coisas sem motivo, a horas sem jeito nenhum, sem ponta por onde pegar nem fio condutor, e a ousadia de mostrar ao mundo esse emaranhado de incertezas confusas, porque, no fundo, é isso que todos somos, e sempre tem mais “tempero” sê-lo assumidamente.

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