Limbo

O corpo entregava-se em plano horizontal ao final de mais um dia, sem hora marcada. Comprimiam-se respirações fundas e pensamentos baços contra o mesmo colchão e os mesmos lençóis. Os olhos deixavam-se preencher pela monótona e homogénea escuridão. Ouvia-se então o rebuliço de pensamentos, para esconder o silêncio que atormenta uma alma em sobressalto. Passava-se em revista o dia, a semana, a vida, sem chegar a lado nenhum, novamente.

As pontas dos dedos, como exploradores, sentiam e cartografavam o mapa do mesmo corpo de sempre, a detalhe, como se de novidade se tratasse… corriam os lábios ponta a ponta, com lentidão que arrepia. Sentiam cada beijo lá plantado, em jeito de utopia de quem o queria reviver.

A mente, por fim desligada da pressa oca do dia, começava então a espreguiçar as asas amarrotadas, fazendo voar grãos de poeira pelos cantos da imaginação. Num suspiro mecânico, vem o momento de compor…

Faz-se então mais um dos tantos textos ditos à voz interior, por conformismo ou preguiça nunca passados a matéria de letras propriamente ditas ou escritas. Cria-se porque só assim se sabe ser. Segredam-se inéditos poemas de amor – os mais belos, os mais quentes, os mais sós – provavelmente os que maior substância de arte contém, por serem justamente assim: intrínsecos, repentinos, vindos de um núcleo que se liberta sem filtro nenhum… Os lábios acariciam amantes virtuais, no limbo entre o sono e o sonho, entre o desejo e o real… entre o ser verdadeiramente, e o moldar-se mecanicamente.

E diz-se então o quanto se ama, afastando cabelos e beijando pescoços que se faz força do fundo da alma para sentir… sussuram-se saudades, fazem-se juras que mais ninguém ouve, sentem-se aquelas mãos, feitas pensamento… deixa-se aquela cabeça, nada mais que anseios, descansar-nos no peito… e fazem-se os mais belos sonetos perdidos na calma de amantes sonhados.

Crê-se na ilusão e fazem-se poemas para o ar… Sente-se o que não há, com força de poeta, quase se torna real o que vai no pensamento… desvendam-se verdades, alimentam-se utopias em loucura planeada… alucinam-se amores de métrica desalinhada.

E escrevem-se sem letras poemas que nunca se hão-de dizer, e fazem-se juras de amor no limbo do anoitecer…
Em cada final de dia, deixa-se a pele para trás, dá-se tudo, abre-se as asas, para ser feliz a voar.
Consumam-se esperanças, entregam-se corações, tatuam-se corpos em poemas mentais…
Ilude-se a alma, em semi-sonhada paixão…
Leva-se ao limite a força de acreditar, criam-se cenários e da noite se faz teatro interior, porque só assim se sabe amar.

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