Mecanicamente

Como tempo que passa, gota a gota, por coador infinito… pingo a pingo em ralos ocos, num eco surdo caindo… como unha que raspa na pele, poro a poro lentamente, em marcas de vermelhidão intermitente, rasgando partículas de matéria sem valor… Os olhos pesam, pende a cabeça, passa o tique-taque monótono… a respiração afunda, o corpo adormece, a alma enlouquece e deixa o peito de sentir.

Olha-se ao pormenor cada gesto em ritual embriagado, tudo sai mecânico… ouvem-se as mesmas notas, da mesma música, do mesmo piano… bate-se ao de leve nas mesmas teclas cansadas, com os mesmos dedos, com as mesmas mãos, com a mesma falta de sabor… continua-se porque sim… sente-se no corpo a mesma ausência, respira-se o mesmo ar, apodera-se de nós o mesmo sono, passa-nos ao lado a mesma vida… persistem as velhas dúvidas, a mesma corda bamba, a montanha russa de carris já ferrugentos.

Espera-se o alívio, ao brotar de palavras mecânicas, num devaneio-escape, e não vem…
Sobra o cansaço de ser… e o já antigo arrepio por dentro da pele, como garras a quererem perfurar sonhos de papel, que não há forma de dissipar.

Respira-se outra vez…. e continua-se… porque sem saber, vive-se em modo “talvez”, semi-amargo, semi-perdido, anestesiado…

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