No olhar de um Pincel – Parte 2

 

E pensar que tão rapidamente te transformavas… passavas assim, desse leve bailarino de cores a um vazio, cinzento, cru, frio… a um farrapo sem alma… de olhar perdido pelo nada distante… deixavas-te mergulhar nessa atmosfera dormente e assim ficavas durante tempos que parecem ainda hoje ser eternos…

E eu ali ficava, abandonado, contando as gotas de chuva que escorriam pela janela embaciada da tua mente… Tentava com todas as forças rebolar, contraindo-me desde o cabo à ponta dos pelos enrigecidos pela tinta seca que deixaste em mim… consegui em fim um leve movimento, e a pouco e pouco saio do sítio como que por magia… rolo por cima da paleta atravessando todas as poças de cores para te salvar desse mar sem fundo onde insistes em te afogar… Ah! Se pudesse por momentos falar…

Caio pesadamente no chão, fazendo ecoar pela sala uma pancada surda… mas nem um movimento, continuas nesse transe vegetativo… perdido no tempo e no espaço, perdido no corpo, na alma e no ser… voas por não-sei-ondes infinitos sozinho…

Rebolo, rebolo, rebolo… o chão gélido parece querer espetar agulhas dentro de mim… continuo nesta sinuosa caminhada, tentando trazer-te de volta… com toda a força, dirigo-me a ti, dando uma forte e seca na tua perna cada vez mais frágil… a tua mão de artista abre-se novamente… pouco a pouco voltas à realidade, e mais uma vez me pegas como se de uma pluma se tratasse…

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