8º CNEC – Fantasma do passado

 

Recordar o professor mais assustador que já teve. Depois imaginar como seria um reencontro com ele.

                Cabelos brancos, severamente penteados, um olhar baço e duro, altamente autoritário, de mãos rígidas sobre a secretária, postura imponente e auto-estima não menos marcada. Ostentava na mão, firme, um anel com uma estranha pedra arroxeada, com um símbolo gravado que não passava despercebido, claramente ostentava, orgulhoso, um símbolo de alto teor da hierarquia cristã, e fazia questão que fosse notado isso mesmo.

                Homem de poucas palavras, façanhudo, mantinha bem claro e bem presente o precipício que, a seu ver, separava um deplorável aluno de seminário de um tão eloquente professor. Que ninguém ousasse olhá-lo nos olhos, ou com um simples gesto, fazia-nos cair pelo penhasco até aos confins da Terra. Não o demonstrava, nem nunca precisou de o dizer, tudo era notório no seu tumultuoso olhar de cascavel.

                Usava um hábito preto, de carapuço às costas, corda atada à cintura raspando-lhe a pele gasta e enrijecida pelos anos. Na perna, discreta, uma faixa de couro com arame farpado cravando-se-lhe na carne a cada movimento, levando-o ao que acreditava piamente ser a salvação das almas e a libertação dos pecados por meio de um benefício de Deus ao qual é chamado dor. Qual personagem de Dan Brown.

                Claramente pertencia àquela polémica organização cujo nome não ousávamos referir enquanto respirássemos o mesmo ar que ele. Isto, claro, se não fossemos ainda demasiado ingénuos para nos apercebermos de uma tão obscura realidade a pairar mesmo debaixo dos nossos narizes… só agora passados tantos anos é que começo a juntar dois mais dois. Pergunto-me se mais algum antigo aluno dele já chegou a essa conclusão.

                Ele irradiava uma aura inquietante, arrepiava-nos a espinha quando passava junto de nós. É engraçado como pouco ou nada mudou, apesar de se ter dado uma tão grande ascensão para seu lado na hierarquia. Poucos deverão associar tão grande figura a um (embora nunca simples) professor de seminário de há anos e anos atrás… embora mantenha aquele olhar unicamente misterioso.

                Claro que não se lembrava de mim, e provavelmente nem notou a minha presença no meio de tamanha multidão de devotos, mas não podia evitar, tinha de sentir novamente aquela onda de receio e nervosismo de contemplar o alto do precipício, agora com a consciência do que me acontecia. As suas palavras ecoaram por todo o recinto, a população escutava-o num silêncio aterrador, o homem de carne e osso mais próximo de Deus…

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