8º CNEC – Doce manjar

 

O que é que cozinharia para um inimigo?

Verme… meu querido e estimado verme… com que então crítica de comida, e ainda por cima no MEU restaurante? O prazer é todo meu de lhe servir uma bela e requintada refeição, isto é, se não se engasgar…

Ora, para entrada, caviar do mais alto requinte, com uma flauta de branco da carta de sugestões do chefe – tudo regado com os cabelos que me fizeste arrancar com raiva de mim mesma por me rebaixares daquela maneira…

O prato principal será um guisado da nossa mais tenra carne de veado… suculenta e saborosa, cuidadosamente preparada, formando fatias perfeitas ao mais pequeno detalhe, com um doce cheiro a ervas aromáticas – generosamente polvilhado com as unhas ensanguentadas que arranhavam meus próprios braços em tentativas de me esquecer de quem era mergulhando na dor, e tudo por tua culpa… Queria partir do mundo, sem deixar rasto, num longo ritual em que cruelmente me desfazia deste corpo que tanto teimavas em ridicularizar até à exaustão, chegar à ilha sem passado, esvaindo-me em gotas de rubi, com sinuosas linhas cravadas na pele, na carne, até às entranhas…

Para sobremesa, terei todo o prazer em servir-lhe o nosso célebre semifrio de rum e passas… bolo esponjoso, humedecido com essa calorosa bebida, acompanhado do mais doce e cremoso gelado, cuidadosamente decorado com fios cor de sangue que se entrelaçam dançando em arabescos artísticos… Todo ele cravejado de lâminas ferrugentas, aquelas que cravava nos pulsos e nas costelas, fazendo-me constantemente lembrar pela dor que por crueldade dos deuses e do destino, ainda continuava viva… escorrendo rios deste meu desprezível ser, miserável criatura sem pinga de razão para continuar a olhar o mundo por estes olhos – fazias-me crer…

Pois agora, minha querida, hás-de provar cada lágrima do meu desgosto, cada grão da minha revolta, e cada gota de sangue do precipício onde me fizeste cair! Maravilhosos sabores, escreverás nessa imunda crítica… mal te apercebes que lentamente se te crava na garganta uma cortante lasca de revolta, enquanto degustas o último doce, agora mais amargo que nunca…

Desejos de uma óptima refeição…

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