8º CNEC – Decisão

 

Escreve sobre uma das mais fáceis decisões que tiveste de tomar na tua vida.

Tinha sido a decisão mais fácil para alguém tão cru como eu… ver-te contorcido de dor, lágrimas escorrendo pelos socalcos da tua cara contorcida pelo desgosto… num pranto, numa aflição sombria que te desligava dos sentidos… fazia-me vibrar por dentro, o sentimento de poder, de ter o destino de uma vida e de todas mais que eu quisesse criar, tão miseráveis como me apetecesse, na palma da minha mão, e poder esmagá-los entre os meus pesados dedos determinantes… Com apenas letras, fazer-te implorar por misericórdia, alimenta-me esta voz obscura que sinto cá dentro…

Lágrimas me escorriam pela face, sombra, cinzas, névoa e um imenso vazio. O mundo inconsciente, embriagado pela dor de te perder… não podia fazer mais nada, não estava nas minhas mãos. À medida que as frias palavras escorriam pelo papel, determinando o meu destino, arrastava-me tremulamente pelo corredor… temendo que acontecesse o que inevitavelmente teria de acontecer… as palavras assim o exigiam.

Passava a língua pelos lábios, esperando ansiosamente pelo clímax da acção… letra por letra tecia o teu cruel destino, cravando-te as palavras como espinhos nesse pobre coração acabado de criar. A decisão era minha, tu apenas terias de lidar com o peso na consciência, coisa que me deixava uma satisfação a pairar na alma… e continuava tecendo o teu destino entre goles de vinho tinto…

Entre detalhes da narrativa que me iam ocorrendo enquanto durava a inspiração, entregaram-te o documento. Sim, quer quisesses quer não, tinhas de ser tu a decidir se desligavam a máquina à pobre da tua mulher, ou não… mas quem decide sou eu, e como eu gosto de te ver sofrer… a decisão é tão fácil como contar até três:

1)      Abro o envelope, desesperado… as letras difusas, gritando-me por compaixão, mas eu sou apenas um fantoche naquelas mãos esmagadoras do escritor… minha pobre mulher, já sem alma, a esperança seria a última a morrer, se não a matasse primeiro o poder das palavras.

2)      Seguro a caneta, as mãos tremendo, tentando em vão resistir, como se fossem arrastadas por um fortíssimo íman, uma névoa de pensamentos me assombra…

3)      Finalmente dou-me por vencido e assino, seguindo a linha deste cruel destino de personagem, o termo de responsabilidade e mando desligar a máquina… fazendo na assinatura um borrão com as lágrimas que insistem em cair.

Satisfatoriamente humedeço mais uma vez os lábios, grande final, black out e fecha a cortina… Aplausos.

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