8º CNEC – Partiu-se a bola de cristal

 

Escreva uma história que anule completamente o velho provérbio: “quem te avisa, teu amigo é”.

Ai como a vida é um mundo de faz de conta Cristina… doce e inocente Cristina… vivias na tua bolinha de cristal, alheia a tudo e a todos, feliz no teu mundinho de fadas… frágeis e carentes, tal como tu, com aquelas vozinhas cristalinas que apenas tu ouvias e que te compensavam a falta de alguém…
Fora do mundinho de purpurinas, tinhas o Fábio, teu companheiro de loucura… longas tardes no sufocante manto branco do hospício. Todas as palavras eram poucas, todo o carinho se evaporava caindo no poço sem fundo que é a tua carência. E ele passava vazias e longas horas que pareciam recuar e voltar a repetir-se – tão monótonas como esse bater que tinha o teu coração – à espera de um sorriso, de um olhar, de um movimento, de um rasgo de lucidez do irmão em que por segundos viesse à superfície desse mar turvo da insanidade já entranhada na pele. Tal nunca acontecia… e ele desesperava…
Foi quando se conheceram, estavas em recuperação – dizias – enganavas todos tão bem, habituada a esse faz de conta quotidiano, que até os médicos acreditavam na tua miraculosa cura.
Apaixonaram-se? Sabias lá o que era amor! Aproveitaste-te do pobre rapaz desesperado, sedento de compreensão, e usaste-o para preencher esse desejo maníaco de amor incondicional. Vítima desse mundo, das garras dessas fadas maléficas da tua loucura, acreditou amar-te, por necessidade de ambos. Era tudo mentira… tudo fantoches, controlados pela tua negra mente.
Eu sim, amava-o! Estive sempre ao lado dele… mas ele apenas me via como uma amiga, uma âncora, nada mais. E depois de tanto tempo, de tantas vezes vê-lo afundar-se e ir buscá-lo ao fundo, perdi-o para uma louca!
Doce e inocente Cristina… sabias tão bem como eu, ou mesmo melhor, que o Fábio merecia bem mais que um farrapo imundo como tu… Pintavas por cima camadas de tinta para esconder as rachas nas paredes da tua alma, mas que no fundo continuavam lá. O Fábio merecia uma mulher independente e forte, que estivesse lá para o acarinhar, e não de ter que ir tomar conta das tuas fadinhas!
Disse-te que era tua amiga, que estava lá para te apoiar e que contasses sempre comigo, e tu carente como um cãozinho, enrolaste-te aos meus pés. Partiu-se a tua bola de cristal entre os meus dentes… e agora: the show must go on. Descansa em paz, junto das fadinhas…

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