7º CNEC – Fim da linha

 

* Um passageiro da primeira classe de um avião resolve despir-se e ficar completamente nu. O que acontece de seguida? *

Um enorme desejo de ver cair no chão estilhaços do espelho que me mostra a imagem daquilo que não sou: foi como tudo começou. Uma viagem de negócios… palavras mais que usadas, sujas e manchadas como nódoas de vinho e de batom no colarinho branco. Pensava que eu era fiel… enganei-a, mas enganei-me a mim mesmo também, na esperança de dissuadir a própria mente, tantas vezes reneguei aquilo que era que acabei por aceitá-lo como sendo a mais pura das mentiras. A barba áspera do professor de germânicas e aquele olhar baço por detrás dos óculos nunca abandonou o meu pensamento. Deixei-lhe o bilhete na mesa da cozinha: é a despedida.
Tarado, porco! Sempre soubeste, sempre fizeste questão de dar aso secretamente a esse lado sujo! Primeiro o rapaz do ginásio… miserável! Eras capaz de te levar a pontos de exaustão só para ficares a vê-lo pingar as gotas salgadas de suor para a toalha branca! Depois o bibliotecário… o quanto testemunharam as páginas amarelecidas da colecção dos livros da DeAgostini, que todos os sábados ias pedir à biblioteca, como pretexto para mais uma e outra vez te deleitares com aquela placa dourada na lapela e o cabelo grisalho meticulosamente penteado para trás, mudas testemunhas da tua perdição.
Não aguentei mais olhar para o meu próprio reflexo, era o fim da linha. Uma viagem para Bruxelas: a oportunidade perfeita. Podia sentir o ódio pulsar nas veias, as entranhas ardiam, uma espuma azeda nos cantos da boca e vontade de arrancar todos os cabelos um por um. Embarquei, seria a última vez que pisava terra firme. No avião, as horas passavam arrastando-se pesadamente. Um copo de whisky atrás de outro, começavam a sortir efeito.
Finalmente, despi o preconceito à medida que tirava cada camada de roupa, ficando à vista o trapo reprimido que era, deixando-me levar na embriaguez. Atónitos, alguns dos passageiros olhavam fixamente, outros desviavam o olhar. Fui directo ao cockpit, desprovido de qualquer remorso pelo que fazia: por fim, eu mesmo. O piloto gemia ajoelhado no chão sem qualquer hipótese de fuga, amordaçado pela minha própria mão, dedos gravados com impressões digitais que agora sentia me pertencerem. Aterrorizado com o que via, o co-piloto não fazia se não obedecer à voz enrouquecida por gemidos da minha insanidade. Com lágrimas nos olhos, contorcendo-se por dentro, seguiu em frente. Despenhámo-nos. Tudo o que resta é o verdadeiro e repugnante eu gritando “liberdade”.

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