7º CNEC – Um pedaço em branco na linha da vida

* Um pai está, desesperado, a procurar o seu filho entre os destroços de um avião acabado de cair. Prossiga a história. *

As minhas mãos calejadas contra a barba escondem as lágrimas… escorre-me sangue que nem sinto… é agudo o som da dor, mas nem o ouço… não vejo… grito mas nem o som me sai dos pulmões, que parecem estar vazios e insistem em permanecer assim… o tempo parece passar em câmara lenta… as luzes azuis e vermelhas passam-me pelo olhar embaciado e ofuscam-me a realidade que parece estremecer sinto algo ou talvez alguém tocar-me… e continuo a ver manchas pairar… Não! Não! – Estão a levar-me para longe… acho que estou deitado, a entrar para algo em tons de branco desmaiado – Não me levem! David! Não! David! Ninguém me ouve… David, onde estás? Filho…
Não me lembro de nada… o que aconteceu? Sons agudos de uma máquina a apitar num ritmo ensurdecedor da alma… Quem é esta gente? Uma jovem de cabelos loiros parece falar comigo… mas não ouço…
– O meu filho!
No entanto ninguém me parece compreender… algo estranho vem em direcção a mim… tudo parece começar a rodar à minha volta… – Parem! Esperem! Ouçam… – sinto que vou desmaiar…
Vejo uma silhueta escura ao longe, parece aproximar-se…
– David? Pensei que te tinha perdido… procurei por ti, gritei mas não obtive resposta e depois as luzes e tudo tremia e levaram-me para um sítio branco… eu disse para não me levarem sem ti, mas ninguém ouvia… juro que não te quis abandonar, juro! Perdoas-me?
Abraças-me… as lágrimas caem-me pelo rosto… passo a mão pelas tuas costas, mas não te consigo sentir… De súbito tudo desaparece numa névoa imensa… uma confusão de fios e apitos de máquinas estridentes instalou-se à minha volta…
– David?
Uma enfermeira vem… olha-me nos olhos… será que entende o que estou a dizer? Entrega-me um papel, e eu pego na caneta na mão que sinto ser de outra pessoa… não me obedece, não a consigo controlar, mas a muito custo escrevo…
Neste momento encontro-me também a escrever… agora na minha velha secretária… a relembrar estes momentos em que tinha noção do meu corpo visto de fora… chegas ao pé de mim muito sorrateiro… posso não te ouvir, mas sinto as rodas da cadeira a rodar para junto de mim… e, como se lêssemos o pensamento um do outro, ambos olhamos para a parede… Pendurado está o papel, em que, numa letra contorcida pela linha sinuosa que desenha a vida, escrevi: “DAVID”…

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