7º CNEC – Porquê Teresa

 

Desafio: Vista a pele de um velho carro que acabou de ser pintado de novo. O que sente ele?

Porquê Teresa?
Porque é que com a cobardia de quem tem medo e com a coragem para rasgar em pedaços tudo que tivemos, me deixaste só?
Porquê Teresa?
Foi por estar presente nos momentos desumanos que viveste? Foi por conhecer de cor cada palmo desse teu instinto de animal?
Bem me lembro de todos os homens que levavas para o banco de trás, no antigo campo de trigo abandonado onde estávamos parados, o teu refúgio para saciar essa sede de loucura…
Não penses que pela mágoa que me causas por todos estes anos de abandono, consigo esquecer todos esses devaneios, esses momentos em que deixavas escapar cá para fora o fogo interior que te queimava a alma e te entregavas ao desejo…
… Não Teresa!
Em todos estes anos que vivi na solidão, na velha sucata abandonada onde me deixaste sem um pingo de tristeza, vi pessoas a passar na estrada em frente… netos, avós, mães, pais, filhos, mendigos, prostitutas e senhores de colarinho e nariz empinado… arrepios? Porquê, Teresa? São todos, todos eles, mais dignos que tu!
Ninguém conseguiria cometer tamanha atrocidade como a que foste capaz! E cometer o mesmo erro tantas vezes sem fim? Pergunto-me como é que ainda tinhas coragem de te olhar ao espelho… devias ter vergonha, Teresa! Com esse teu ar de inocência levar homens a cair nas garras da tua insanidade e devorar-lhes a alma… homens com família, com emprego, com vida… alimentavas esse prazer demoníaco e depois, para que não restasse indício, enterrava-los no velho campo de trigo.
Porquê Teresa?
Tinhas filhos e marido, é certo que podiam não ser a família com que sempre sonhaste, mas será que não se perguntavam onde estarias nessas longas horas que batiam num compasso de loucura? Será que não te apoiariam nessa doença que te destrói por dentro? Mas não… preferiste ouvir essa voz tentadora que só tu ouvias, em vez de lutar, Teresa… pobre e fraca Teresa… E agora estás só… e mandaste que me pintassem de novo e que me arranjassem para não ser descoberta a ilha da perdição desse verme que és tu… Mas ainda estão cá dentro as marcas que me deixaste, Teresa, e não descansarei enquanto não revelar as cicatrizes que me deixaste na mente.
Pensas vir buscar-me em breve agora que sou outro? Pois não te quero, doce Teresa!

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