7º CNEC – Flor-Camila

 

*Escreva uma história que anule completamente o velho provérbio: “quem te avisa, teu amigo é”.*

Ela tinha-te avisado… mais que uma amiga, mais do que uma filha, o brilho da tua vida… e tu, pensando tratar-se de mais um insignificante capricho das fases de miúda, ignoraste… não ouviste e deixaste que mais uma vez, sub-repticiamente, a onda de preocupações e “correrias” típicas da vida adulta te envolvesse, abafando os seus últimos avisos que ouvias em surdina e te passavam ao lado…
Camila passava os dias olhando a imensidão do nada, como quem queria absorver todas as partículas, todas as moléculas e átomos do mundo que a rodeava… ela deixou-te tantas pistas! Tantos trilhos que ignoraste… que podiam ter evitado um fim para um princípio ainda pintado de fresco… Agora a culpa bate-te à porta e tu, verme fraco, deixa-la entrar, na esperança que preencha a sombra de Camila… não… a culpa pode fazer-te companhia todo o tempo, todo o espaço, todo o momento do resto da tua amarga vida, mas o brilho de Camila, esse, nunca o terás novamente…
Agora a onda que te envolve é outra… bem sei, mesmo que penses que consegues esconder, que vês e revês as poucas memórias que tens em que estavas com ela verdadeiramente… Lembras-te daquela manhã? Camila caminhou para o teu quarto de pijama e chinelos, enroscou-se ao teu lado e sussurrou-te ao ouvido: “Pai, sabes qual é a lição mais valiosa que alguém pode aprender? …Viver cada dia como se fosse o último.”. E tu, ainda meio ensonado, pouco ou nada ligaste… esqueceste ou nem sequer chegaste a lembrar… Mas poucos dias faltavam… Chegaste a casa, distraído com a papelada do costume, um telefonema do chefe, um e-mail,… de súbito sentiste um arrepio na espinha que te despertou a atenção, pela primeira vez reparaste como tinha crescido a planta junto às escadas… subiste… nem sinal de Camila… ouviste barulho de água a correr e abriste a porta da casa de banho… foi então que ouviste o som da dor… Camila já havia chegado ao destino que sempre quis… os longos cabelos negros flutuavam na banheira… usava o vestido que lhe tinhas oferecido há uns anos…
No espelho embaciado lia-se “1990-2006… Adeus” …
A planta murchou passados uns dias… e regaste-a com as tuas lágrimas salgadas… decidiste dar-lhe o nome de Camila… as flores brancas da cor do vestido parecem diferentes e a cada primavera tens esperança de ver renascer a mais bela flor…

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