O céu continua choroso

 

Acordei… é de manhã… dizem que o céu está limpo, que o Sol brilha, que está bom tempo, mas eu só vejo nuvens negras, escuras, deprimidas e deprimentes, tal como a vida que levo. Para mim o céu continua a chorar, como a minha alma… eternamente…

Não vieste, não te tenho, nem sei se algum dia te vou poder ter nos meus braços, envolver-te em carinho e ver a tua aura brilhar, mais forte ainda que o Sol escondido por detrás destas nuvens tristes, os lençóis dos anjos chorosos, desesperados como eu… por vezes pergunto-me se existe mesmo Sol lá ao longe no reflexo da janela, ou se é apenas mais uma ilusão distante como o dia em que tu chegas e pintas de cor a minha vida com a tua aguarela…

Agarro-me à garrafa, vazia como a minha alma, como o meu coração, como a minha esperança de viver… as lágrimas de outros choros secaram, talvez tenham achado que já não fazias falta aqui, minhas eternas companheiras nesse peso de viver, quem me dera poder-me evaporar daqui como uma lágrima triste e sozinha… e molhada… sim, sinto-me molhado, encharcado, submerso em humilhação, cobardia, deprimência, fraqueza… sentimentos de alguém cobarde… o mesmo alguém de sempre… aquele verme rastejante que se deixa afundar no desespero, que já chegou aos confins do mais profundo oceano e continua a afundar-se na infinidade da tristeza…

Abria a fresta dos cobardes, mas está vazia… até a minha esperança dissimulada se esvaziou… o buraco é cada vez mais fundo e as cordas para subir partem-se a cada batimento do meu coração, despedaçado pelas lágrimas que continuam a embater no chão…

Pergunto se algum dia virás e a pergunta ecoa no ar… o tapete já rompeu com tantas garras marcadas, garras do bicho que continua escondido dos olhos impiedosos do mundo… a resposta é um silêncio sinistro… ouço a garrafa rebolar pelas tábuas de madeira, até ele segue o seu caminho, apenas eu fico aqui parado, sozinho… deixo-me adormecer mais uma vez na esperança que o tempo deixe de correr, que a Terra se decida a deixar de girar e que… num dia perfeito que parece nunca vir… o meu coração deixe de bater…

 

Carlos Vieira

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